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Comunidade Evangélica Entre as Nações





 
Aliança Quebrada
Mesmo sendo encobertas, estatísticas mostram avanço nos números de divórcios entre evangélicos. Motivos são os mais variados


Há alguns anos o tema divórcio era tratado com receio, pudor, intolerância e cuidado dentro das igrejas. Neste período, dizer que “estava se divorciando” era motivo para castigo no “banco” da igreja, bronca em gabinete (ou de púlpito mesmo) e até exclusão. Abordar e, principalmente, tentar entender os motivos que levaram o casal ao declínio de seu casamento era quase proibido.

O tratamento dispensado à maioria dos casos beirava a hipocrisia explícita. Frases como “É melhor ficar junto e manter as aparências... Afinal, você é líder do ministério ‘tal’ aqui da igreja...”, “Deus vai restituir seu casamento...”, “Se Ele já lhe perdoou, ela também lhe perdoará...”, entre outros termos, que foram construídos com o passar dos anos dentro dos templos. Mas, por que os números de divórcios entre evangélicos aumenta? É uma tendência? Moda? Ou estão acordando para uma realidade ainda mais grave: casaram mal, só para não pecar?

O pastor Martinho Monteiro, presidente das Assembléias de Deus – Ministério Igrejas Renovadas, em Alcântara (RJ), concorda que cada problema deve ser tratado individualmente, mas que boa parte dos fracassos nos casamentos evangélicos, inclusive entre líderes, é devido ao “protótipo americano de igreja e de ministério, que não passou de um modelo ‘caça-níqueis’, e que, infelizmente, moldou uma geração de pastores”.

Por que o divórcio entre evangélicos, incluindo pastores e grandes líderes, cresce? não é possível ser simplista e achar que a razão é uma só. “No entanto, eu diria que na maioria das vezes os evangélicos casam muito mal, pressionados pela ‘necessidade sexual’ ainda jovens e fazem escolhas limitadas a igreja que freqüentam. Assim, pressionados pelo ‘abrasamento’, se casam. Depois de maduros descobrem que se precipitaram”, explica. Para o pastor, os casos de divórcio nas igrejas não é uma novidade atual. “Muitos viviam e seguem vivendo de aparência”, afirma.

Gabinete das lamentações

O pastor Martinho Monteiro diz que muitos colegas de ministério o procuram para reclamar de suas esposas, num ato típico de egoísmo. “Alguns me procuram para dizer que não agüentam mais as esposas. Entretanto, nem se dão ao luxo de perguntar à elas o que acham deles. Eles tentam justificar seus erros defendendo a bandeira do divórcio ‘legal’, acordado entre as partes. Isso é incoerente, totalmente errado e anti-bíblico”.  O que está acontecendo é apenas a explicitação do que antes “se varria para baixo do tapete”. “Eu passei a vida toda vendo casais separados de alma vivendo sob o mesmo teto. Inúmeros pastores. Até hoje centenas deles me confessam que vivem da ‘aparência’, para fins de ‘consumo social’. No passado, os pastores continuavam casados apesar da infelicidade, pois divorciar-se seria a mesma coisa que ‘negar a fé’. A sociedade já se divorcia faz tempo. A novidade é a oficialização do divórcio no meio evangélico”, dispara.

Porém, quando o assunto é separação, o pastor Martinho Monteiro tem opinião diferente. “O divórcio infelizmente se popularizou porque já estava sendo praticado debaixo dos panos. Sou neto de pastor e meu avô dizia que a oração resolve tudo, inclusive nos ensina a ser paciente na tribulação e perseverante na angústia. Mas, infelizmente, a minha geração não acredita nisso. Com isso vimos, e, lamentavelmente, ainda veremos, inúmeros grandes líderes que preferem se separar do que orar”, lamenta. Para ele, muitos líderes passaram anos pensando que a salvação ou os títulos os imunizariam. “Estão desabando exatamente naquilo que muitas vezes pregaram contra. Fazem o mesmo que o mundo faz, sem se importar com a palavra de Deus, que claramente abomina o divorcio”, diz.

O povo fala

Pessoas comuns também passaram ou estão passando por este “fenômeno”. Por motivos óbvios, os nomes das pessoas serão preservados. A irmã “C. M. F.” foi casada com um “grande” líder evangélico brasileiro. Ela sentiu na pele as dores da separação e o peso da discriminação. “Quando nos separamos, senti que o mundo ia desabar sobre minha cabeça. Pensei que receberia abrigo na igreja. Mas, ele deturpou o que acontecia em nosso casamento para que parecesse que ele era a vítima. Fui praticamente convidada à me retirar da congregação de tanta vergonha que os membros diziam sentir de mim. Eu é que deveria me sentir envergonhada pois ele me traiu e saiu como ‘santo’ na história. Sofri tanto, nos aspectos sentimental e físico inclusive, que cheguei a ter graves doenças. Hoje, estou curada e reconstruindo minha vida, graças a Deus”, conta.

Outro caso de divórcio aconteceu com o missionário “R. C.”, de São Paulo (SP). Ao relatar ao pastor presidente de seu ministério, que “achava que havia casado mal”, o ministro se revoltou e excluiu o missionário sem titubear. “Foi humilhante. Disse para ele que realmente me senti pressionado a casar. Éramos muito novos e, para não pecarmos, resolvemos nos unir. Meu ministério cresceu, ela não me acompanhou, fomos perdendo o interesse um pelo outro e, conseqüentemente, perdemos até mesmo a amizade, que era a grande marca de nosso relacionamento antes do matrimônio. Achei que meu pastor poderia ter analisado melhor e me ajudado...”, diz, um pouco resignado.

Já a carioca “J. F. S.”, do bairro de Madureira, na zona norte do Rio, pressionada por ser filha de pastor, casou-se com 17 anos e sentiu na pele o peso de ter que fingir que o casamento “vai bem”. O marido, de acordo com ela, tinha algumas dúvidas e medos por casar muito jovem. Após o casamento, o jovem tímido passou a ser um grande pastor. Seu ministério se desenvolvia e, junto com a evolução, as traições também acompanhavam o crescimento. Mesmo sabendo de tudo, ela foi obrigada a tolerar e “fingir” que nada acontecia. “Foi muito difícil. Separar-me, àquela altura, seria um escândalo na denominação. Mas, continuar casada seria ‘passar atestado’ de burra.

Tentei de tudo, mas não tive outra opção”, diz a hoje escritora, que dá palestras educacionais para jovens evangélicos.

Existe explicação?

Nos três casos citados, todos se desfizeram. Existe “algo errado” nos casamentos evangélicos de hoje? existe sim, e não é de hoje. Existe um simplismo enorme: A idéia de que Deus banca os casamentos! Ora, casamento é coisa de um homem e uma mulher e os dois é que têm de se encontrar. Também falta intimidade, amizade. A maioria dos casais não se conhece verdadeiramente, acabam vivendo de fachada e esperam que sua conduta moral e eclesiástica seja a âncora de seus casamentos... e não é.

Para o psicólogo Dr. Márcio Freitas, que é evangélico, os problemas nos casamentos de hoje podem estar diretamente ligados ao fato de que muitos jovens se casam cedo demais: “Muitos são imaturos. E imaturidade independe da idade. Assim, estes jovens, futuros líderes, ignoram a inexperiência e casam-se cedo, queimando etapas fundamentais na vida à dois, como conversas sobre costumes, gostos pessoais e profissionais, diferenças culturais, etc. Com isso, temos casamentos doentes no futuro por que a ‘raiz’ do presente não foi bem desenvolvida”, diz.

Tem solução!

Então, como diminuir as estatísticas de divórcio, que cada vez mais crescem no âmbito informal, mas que nos discursos continuam sendo negadas? Qual a solução?

O psicólogo aponta uma direção a se seguir: “Vejo que o grande caminho para que tenhamos casamentos saudáveis passa, invariavelmente (queiram ou não os religiosos), pela etapa fundamental da conquista da amizade, confiança, troca de experiências, desenvolvimento do respeito mútuo e conversa, muita conversa. Pois quando os interesses físicos deixarem de ser o atrativo principal do casamento, só restará amizade e muito papo”, finaliza.


Sergio Dias
Jornal Palavra On Line